quarta-feira, 28 de julho de 2004

Smart Mobs e Cibercidades: Definições e Problematizações

As Smart Mobs ou Multidões Inteligentes são novos agrupamentos sociais formados por pessoas com a capacidade de agir de forma coordenada, mesmo sem se conhecerem previamente, através do uso, da interconexão e da convergência de telefonia móvel, computação móvel e redes sem-fio.
O termo smart mob foi cunhado por Howard Rheingold no seu mais recente livro, Smart Mobs: the next social revolution. Segundo o jornalista e pesquisador de tecnologia, estamos chegando em uma nova forma de comunicação, com todos os aspectos positivos e negativos que isso envolve. Os riscos do controle destes mecanismos sobre a vida dos usuários se mostra alarmante. Porém, o poder dos PCs e da net escapou do desktop e pulou para os nossos bolsos. É um fenômeno emergente que traz tantos perigos quanto oportunidades.
A invenção das smart mobs e suas conseqüências sociais ainda estão nos mais prematuros níveis de desenvolvimento, pois para a maioria das pessoas aprender a agir juntas leva tempo. Contudo, vários acontecimentos relevantes já ocorreram, mais rápido do que se esperava. Até o momento, o que podemos perceber é que as smart mobs já estão alterando o cotidiano das cidades; principalmente aquelas que agenciam mobilizações de resistência política mediadas pelos dispositivos intercomunicáveis, portáteis, pervasivos e sencientes da atual tecnologia móvel. Criando uma guerrilha inteligente, os integrantes de tais multidões se organizam rapidamente em torno de uma causa – através de táticas de swarming e estratégias de netwar – como pudemos observar tanto nos protestos de Seattle contra a OMC em 1999, quanto nas manifestações que levaram à deposição do presidente filipino Joseph Estrada em 2001.
Esses tipos de conflitos políticos e sociais deverão ditar e regular a postura das perguntas e respostas sobre como nós viveremos no ambiente urbano nas próximas décadas. O maior perigo de todos é que o novo meio venha a ser possuído e controlado por um pequeno número de operadores/controladores extremamente poderosos, que poderiam controlar como as gerações futuras viriam a se comunicar e se mover pelas ruas das cidades.
A introdução da mobilidade nas redes comunicacionais – resultado da convergência de várias tecnologias móveis – provoca mudanças na maneira como as cidades e seus habitantes se organizam e interagem, sobretudo, politicamente. Quando pensamos as questões relativas às cidades contemporâneas não podemos deixar de perceber que a emergência do ciberespaço já afetou, e continua afetando, o ambiente urbano. A cidade, pelo menos desde a modernidade, é composta por múltiplas redes infra-estruturais, comunicacionais, sociais, organizacionais e de transporte. Porém, com o advento das novas tecnologias de informação e comunicação, as urbes passaram por transfigurações importantes. Como resultado da convergência gradual de vários processos, vemos se configurar uma urbanidade inteligente apoiada menos na acumulação de coisas e mais no fluxo de informação.
O urbanismo e a arquitetura estão sendo reinventados. Devido às transformações tecnológicas, os atuais planejamentos urbanísticos e projetos arquitetônicos não só começam a levar em conta a crescente desterritorialização das relações sociais e econômicas, como também passam a criar ambientes eletronicamente servidos e globalmente interconectados, construídos como promessa de uma vida melhor para os cidadãos.
A Cibercultura está possibilitando a emergência de um novo tipo de cidade, cujas configurações e dinâmicas passam a estar atreladas à digitalização, à computação e às novas redes telemáticas. As cidades contemporâneas se tornam cada vez mais ambientes que articulam o mundo físico com o mundo virtual, onde pessoas, objetos e lugares podem ser localizados e conectados sem fios, entre si e a qualquer parte do mundo, através do ciberespaço. Se as previsões estiverem certas, em breve, todas as cidades se tornarão um único ambiente senciente e responsivo. Em termos de interconexão, poderíamos dizer que essa tendência provoca uma mutação na física da comunicação, pois passaríamos das noções de canal e de rede a uma sensação de ambiente envolvente. Os veículos de comunicação não estariam mais no espaço mas, por meio de uma espécie de reviravolta topológica, todo o espaço se tornaria um canal interativo. Em breve, a última rede comunicacional necessária servirá apenas para interconectar cidades globais.
Os ambientes urbanos se transformam, assim, em cibercidades ou cidades cibernéticas. Ambientes telemáticos de comando cujas funções são mobilidade e controle. Controles móveis e mobilidades controladas em espaços abertos. Modulações de tempos, espaços, velocidades e deslocamentos. As smart mobs são coletivos inteligentes com o potencial de criar novas maneiras de modular, preencher e ocupar o espaço-tempo. Ou de criar novos espaços-tempo e modos de se mover neles, segundo outros ritmos e outras velocidades.
Novos agenciamentos podem ser produzidos através das atuais tecnologias móveis que tornariam possível uma mobilidade emergente. A emergência é um tipo de mobilidade que escapa ao controle, pois permite um tipo de nomadismo intensivo onde o deslocamento ou a mudança é de nível (natureza) e não de localização. Ao invés de passar de um ponto a outro (nomadismo extensivo), porém permanecendo num mesmo nível, a emergência nos faz passar para um nível superior, vital, mais apropriado para as modificações ocorridas no ambiente. A nova CiberUrbe que estamos contruindo é uma articulação complexa entre cidade, ciberespaço e inteligência (coletiva e artificial), onde o que está em jogo é emergência e controle.
Tanto as cidades quanto as smart mobs são sistemas emergentes. Os sistemas emergentes são auto-organizáveis e resolvem problemas com o auxílio de multidões de elementos relativamente simplórios, em vez de contar com uma única “divisão executiva” inteligente, um líder, ou um controle central e hierárquico. São sistemas bottom-up, e não top-down. Pegam seus conhecimentos de baixo, não de cima. E nenhuma das unidades autônomas consegue realizar todas as atividades necessárias para se conseguir a mudança de nível, ou melhor, a emergência. Vemos em tais sistemas a ausência de imposição de controle centralizado, a autonomia dos agentes, a alta conectividade entre eles, e uma trama não-linear de parceiros influenciando parceiros.
Embora as cibercidades tendam a ser rigidamente definidas de cima para baixo, por controles e forças top-down – como leis de zoneamento e comissões de planejamento –, temos que reconhecer que os controles e forças bottom-up sempre desempenharam um papel fundamental nas formações das cidades. E, graças à emergência, isso continuará a acontecer, através da criação de smart mobs, comunidades distintas e grupos demográficos não planejados. As cibercidades estão emergindo de modo imprevisível e o controle sobre a forma final de tais cidades, como tudo indica, será indireto e disperso.
A cibercidade é apenas parcialmente um sistema bottom-up. Suas associações e relações são organizadas de baixo para cima, mas as estruturas internas das corporações e instituições que buscam governá-la são montadas estritamente de cima para baixo. A questão seria, então, saber que tipo de controle é mais saudável, pois os sistemas bottom-up são bons em muitos aspectos, mas podem sair totalmente de controle se seus mecanismos de feedback não forem propriamente calibrados. Assim, o que parece ideal é um sistema misto de bottom-up e top-down, mas com os controles e as forças bottom-up (smart mobs, comunidades virtuais locais e globais, inteligência coletiva, etc.) sendo o poder constituinte dos poderes constituídos (instituições administrativas, representações políticas, etc.) das cibercidades emergentes.
Desse modo, emergência e controle não se excluem, e nem são em si mesmos negativos ou positivos. Ambos são parte integrante dos processos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização agenciados pelas smart mobs, já que a existência da cibercidade não implica um controle centralizado, mas uma emergência expressa em múltiplas conexões tanto horizontais quanto hierárquicas. Contudo, não se trata apenas de uma inversão de hierarquias. Um sistema emergente não é um teatro político, mas sim um sistema que produz um movimento único em um nível coletivo, a partir de movimentos singulares num nível individual, sem combinação prévia. Isso pode criar organizações de cidades e movimentos políticos mais inteligentes e eficazes.
Porém, só os sistemas complexos adaptativos mostram comportamento emergente. A complexidade emergente sem adaptação (tipo as flash mobs) é interessante, válida e bonita mas não tem função - não que isso seja um problema. Mas as formas de comportamento emergente adaptativas mostram a qualidade distintiva de ficarem mais inteligentes com o tempo e de reagirem às necessidades específicas e mutantes de seu ambiente. Por isso, os sistemas emergentes adaptativos são mais dinâmicos e raramente se fixam em um único formato imutável. Formam padrões no tempo assim como no espaço. Os sistemas de auto-organização só se tornam mais adaptativos quando há interação entre vizinhos, reconhecimento de padrões, feedback e controle indireto.
No contexto das cidades, e das cibercidades que estamos contruindo, a emergência ocorre, principalmente, no nível da rua, espaço aberto e lugar de encontro, mobilização e ação das smart mobs. Porém, esse movimento em direção a um nível singular de inteligência coletiva requer não só tecnologias móveis e interconexão, mas também ambientes de organização. A emergência não é nenhuma força mística que aparece da mera colaboração e interação entre agentes, ela precisa de ambientes que facilitam a inteligência de nível superior, pois alguns ambientes a suprimem. Os ambientes telemáticos de comando que estão sendo configurados podem tanto inibir quanto promover a inteligência coletiva. Se as cibercidades no lugar de promover a emergência de ruas vibrantes, favorecer a proliferação de complexos comerciais e residenciais fechados e anônimos, ou o predomínio de auto-estradas de informação e veículos, não se tornarão sistemas emergentes. Pois a emergência nas cidades se dá a partir do nível da rua e da interação entre estranhos que acontecem nele. Tanto a ordem (controle) quanto a vitalidade (emergência) das cidades cibernéticas também surgirão dessa reunião informal e improvisada de agentes e multidões inteligentes (humanos e artificiais), estranhos uns aos outros, que se encontram, se mobilizam e agem em suas ruas.

2 comentários:

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